terça-feira, 10 de março de 2026

 Voce não tem pra onde IR!




Todos diziam o caminho é árduo, difícil  , impossível

voce não acreditou

 fez o seu caminho 

só voce sabe o que passou

subiu nos melhores palcos

se apresentou em cima de mesas improvisadas

mergulhou em banheiras de hotéis

e também dormiu no chão ao lado de uma geladeira

voou e também dormiu no chão da sede  do PT de Guarulhos

acompanhado do rei e da diva do teatro.

foi expulso de cidades por atentar contra a moral e os bons costumes do lugar

foi preso em praça pública, quanta história pra contar

Não foi a Nova york, nem a Paris

o mundo veio até  você.

Não é hora de olhar pra trás

cancelado voce nasceu

Ninguém tem obrigação com vc

vc escolheu

 tá sofrendo por que quer

tá chorando por que quer

não sabe negociar a moeda que eles usam

não guardou seu trocado pra dar garantia

o artista invisível da chapada

aquele que canta para uma  platéia vazia

o deserto de quarenta anos sozinho

não eu não estou sozinho

carrego comigo a leveza dos ancestrais

o violão de minha vó 

os livros do vovô

o cheiro de alfazema no pescoço e a lavanda do velho vestido

os cabelos brancos debaixo do pé de almenda

o cachorro cagão , na escola a merenda.

Enquanto caminha sem destino 

morando de favor , sem nem um tostão

a dureza da vida, sem ter ilusão

ai de repente , um encontro, uma abraço

um sorriso de gratidão

alunos que passam , mães que te olham

voce que não tinha pra onde ir mostrou o caminho pros outros andar

levanta a cabeça, não se desespere

quem sabe um dia, não vão lhe enxergar.


Mocha

manhã de terça feira das águas de março
Teresina

terça-feira, 24 de fevereiro de 2026

 Atuação



o silêncio fora do palco era congelante

o artista no palco parecia sangrar pela garganta

uma voz poderosa , vitoriosa

nada importava

a luz desaparecia

o cenário não existia

mesmo vestido parecia estar nu

ele era a cena

corpo entregue

olhar focado, quase farol para as estrelas

um espetáculo de vida imaginária

poderia quase ser tocado de tão real

essa cortina do tempo que divide palco e platéia.

cada gesto, uma minúcia

cada detalhe movimento precisamente estudado

um corpo que fala, linguagem viva quando morrem as palavras

nascimento da cena.

quanto tempo a vela acesa ilumina

existência breve para o resto da vida

momento pra se guardar

palco lugar sagrado das emoções.

e as palmas ecoam, reverência mútua

esse acasalamento entre ver e ver-se

artista que mora no olhar da platéia.

não existe fim para vela que queimou até se apagar por inteiro.

o fogo fica na memória.


Mocha

tarde de fevereiro de 2026

Teresina.


Para todos os colegas e amigos ,atores e atrizes do estado do Piauí


Ps : Na foto, o ator Vitorino Rodrigues no monologo 0 Que Te Escrevo É Puro Corpo Inteiro, de Nathan Souza.


terça-feira, 10 de fevereiro de 2026

 







A (In) Visão da Cidade


Pelas ruas onde ando

Pelas estradas onde caminho

olhando  pela janela eu busco ver o invisível…

Na estrada de terra, vejo um homem, um carro e um cavalo

Na rua de asfalto vejo um homem, uma bicicleta e um fogareiro.

Essas imagens me perturbam

um deles dirige o carro que carrega o reboque que tem o cavalo

o outro está na bicicleta com o fogareiro aceso na garupa

o movimento de um me remete ao outro

quantos elementos para além do visível

a existência poética da história destes homens

o que olha, os que são olhados

eles não se percebem

cada um dono de seu próprio universo.

Verso que faz ver-me e ver-se tão perto deles

fábulas de uma mesma raiz

o homem e o deus no próprio homem.

passageiros de toda uma existência

assim caminha a humanidade.

Vagarosamente.

Pela lente dos olhos ainda humanos

distantes do olhar de vidro sobre as mãos, esse tal de meta verso,

dedos que tentam subir ou descer imagens

enquanto o mundo lá fora precisa ser tocado

cuidado , cuidado de um , cuidado de todos.

Um olhar para o outro e apenas sorri entre si.

esse código do silêncio que grita nos meio das palavras jogadas  ao vento.

Eu me entendo 

Tu me percebes

Nus entendemos, sem pecado.

Original.


Moisés Chaves

Teresina, manhã de terça feira de pré carnaval 2026

alegoria sobre a solidão.