terça-feira, 24 de fevereiro de 2026

 Atuação



o silêncio fora do palco era congelante

o artista no palco parecia sangrar pela garganta

uma voz poderosa , vitoriosa

nada importava

a luz desaparecia

o cenário não existia

mesmo vestido parecia estar nu

ele era a cena

corpo entregue

olhar focado, quase farol para as estrelas

um espetáculo de vida imaginária

poderia quase ser tocado de tão real

essa cortina do tempo que divide palco e platéia.

cada gesto, uma minúcia

cada detalhe movimento precisamente estudado

um corpo que fala, linguagem viva quando morrem as palavras

nascimento da cena.

quanto tempo a vela acesa ilumina

existência breve para o resto da vida

momento pra se guardar

palco lugar sagrado das emoções.

e as palmas ecoam, reverência mútua

esse acasalamento entre ver e ver-se

artista que mora no olhar da platéia.

não existe fim para vela que queimou até se apagar por inteiro.

o fogo fica na memória.


Mocha

tarde de fevereiro de 2026

Teresina.


Para todos os colegas e amigos ,atores e atrizes do estado do Piauí


Ps : Na foto, o ator Vitorino Rodrigues no monologo 0 Que Te Escrevo É Puro Corpo Inteiro, de Nathan Souza.


terça-feira, 10 de fevereiro de 2026

 







A (In) Visão da Cidade


Pelas ruas onde ando

Pelas estradas onde caminho

olhando  pela janela eu busco ver o invisível…

Na estrada de terra, vejo um homem, um carro e um cavalo

Na rua de asfalto vejo um homem, uma bicicleta e um fogareiro.

Essas imagens me perturbam

um deles dirige o carro que carrega o reboque que tem o cavalo

o outro está na bicicleta com o fogareiro aceso na garupa

o movimento de um me remete ao outro

quantos elementos para além do visível

a existência poética da história destes homens

o que olha, os que são olhados

eles não se percebem

cada um dono de seu próprio universo.

Verso que faz ver-me e ver-se tão perto deles

fábulas de uma mesma raiz

o homem e o deus no próprio homem.

passageiros de toda uma existência

assim caminha a humanidade.

Vagarosamente.

Pela lente dos olhos ainda humanos

distantes do olhar de vidro sobre as mãos, esse tal de meta verso,

dedos que tentam subir ou descer imagens

enquanto o mundo lá fora precisa ser tocado

cuidado , cuidado de um , cuidado de todos.

Um olhar para o outro e apenas sorri entre si.

esse código do silêncio que grita nos meio das palavras jogadas  ao vento.

Eu me entendo 

Tu me percebes

Nus entendemos, sem pecado.

Original.


Moisés Chaves

Teresina, manhã de terça feira de pré carnaval 2026

alegoria sobre a solidão.


segunda-feira, 24 de novembro de 2025

 A Delicadeza do Silêncio na Voz do Filho de Mil Homens





Até onde a arte chega? Até onde ela é capaz de tocar? Um livro, um filme, uma música, uma palavra, um olhar… O que nos leva assistir, a ler, a ouvir, a sentir? O que nos emociona, nos faz parar, nos faz refletir? Quanta beleza cabe em uma película? Quanta riqueza exposta pelo cinema brasileiro? E esse mar que nos atravessa, esse continente desconhecido para tantos,esses laços linguísticos entre a direção precisa de Daniel Resende e as palavras de Valter Hugo Mãe, ditas preciosas na voz de Zezè Motta, esse “ cair para dentro de nós”. Disse tudo isso para expressar meu olhar sobre o filme O FILHO DE MIL HOMENS , que tive o privilégio de assistir neste final de semana, e me tocou profundamente, pela densidade do tempo expresso como se fosse uma brisa suave e forte ao mesmo tempo, e os silêncios extremamente comunicativos na delicadeza e na afinação interpretativa do elenco coeso e rico, muito rico de atore gigantes em suas atuações. 

Numa leva gigante de exposição do cinema brasileiro, Daniel conduz com segurança e maestria a direção espetacular e um elenco primoroso, com destaque necessário para Rodrigo Santoro, que cada mais amadurece e recusa o papel de galã com o qual queriam coroá-lo, e para Grace Passô, Inez Viana, Juliana Caldas e Johnny Massaro, que desempenham brilhantemente suas atuações minuciosas e tão dolorosas, uma melancolia que esvai pelo canto dos olhos. Sem falar no elenco adolescente, quanta sinceridade! e o que dizer de Livia Silva? Há de ver pra se deixar levar…

Como não se contaminar pelo andamento do filme, seus silêncios dominantes, cujas palavras são como címbalos de um sino que dobra em uma velha aldeia, em diálogos pequenos porém profundos . 

A riqueza do cinema brasileiro desfila diante de nossos olhos, nem precisa ser um agente secreto para descobrir o que o mundo inteiro está vendo , e nós , cada vez mais nos enxergando nas telas pequenas ou grandes de um país que parece que se permitiu acordar.

Viva o cinema Brasileiro, parabéns a toda equipe do filme, cujas ligações se mostram ancestrais, numa conspiração e convergência de emoções, uma  sintonia afiada que escorre pelos pixels e frames das peles de nossos  olhos.


Mocha

zona rural de Teresina, tarde de sábado de novembro



sexta-feira, 30 de maio de 2025

 

O sorriso do Gato sem Hélice



Ele perdeu todo dinheiro que tinha

nada havia para perder ou ganhar

nem tinha ao menos pasta de dente

ele só tinha a música e o teatro

dançava na corda bamba sem sobrinha

equilíbrio de artista num país sem educação

ele só tinha o não , sempre o não

voltou a ler , a escrever

sentou no banco da escola, sem merendeira

virou a mesa , transou poeta

nunca tivera uma ampulheta

bateu em portas , abriu janelas

puxaram logo o seu tapete, 

vc não pode crescer

ser bom é uma ofensa

quem se aproveita da inocência?

soul indecente, não tem aurora

é luz que brilha no sol poente

ser tão cigarra , ser tão formiga

uma fábula de resistência

Já lhe disseram que artista piauiense bom é artista morto

voce ainda está vivo?

mas voltou com força do fundo do poço

recomeçou e deu uma volta 

o mundo gira, ele capota

quem esteve ao sol do equador

já viu pior 

ser cool no mundo , chão Piauí

por que ainda morar aqui?


Mocha

maio de 2025

segunda-feira, 24 de fevereiro de 2025

  Pra não esquecer de mim



A casa está vazia

A geladeira esta vazia

O bolso está vazio 

Caminho á procura  de mim


As ruas estão vazias

As pessoas estão com medo

Uma bala perdida na próxima esquina

 A nova loira  da tv está no carro da policia

a justiça solta, ela ri debochada.

Nos corredores do palácio as jogatinas continuam

Quem dá mais ? Só governa se deixar roubar

Os bares da minha lembranças estão vazios

Nós e Elis ainda canta pra todos .

Cadê a esperança que não dança?

A corda virou forca

O café não está sopa

Olho as telas das tvs, dos telefones, ninguém mais liga

O que procuram? Tudo tão a vista

Nada mais a descobrir 

Um Rio que chora

Uma Teresina de Jesus, que de uma queda foi ao chão 

O bloco dos solitários no carnaval e eu a espera 
de mim.

E vc ainda está ai?


Mocha

Pré carnaval de 2025

domingo, 3 de novembro de 2024

O homem , um Livro e o Mar 



Folhas de papel em plenas mãos

passos silenciosos na areia da praia

olhos que não se encontram

orações que não se esperam

chegou tão repente e quase se foi num piscar de olhos

por um segundo não te perdi

olhei em teus olhos depois de passear pelo teu corpo

tinha um livro em suas mãos

me contou a sua história 

me vendeu uma ilusão num mural de realidade

eu, o homem, o livro e o mar.

depois da despedida , o reencontro

uma magia que que não se explica, só se sente

cada olhar, cada abraço, cada sorriso, cada momento.

depois a estrada novamente, as pontes que se fazem no silencio

um rio que passa em minha vida

pássaro breve que veio e foi como uma brisa de verão.


Mocha

Novembro de 2024

quarta-feira, 3 de abril de 2024

Cena  de Cinema




Sonhei contigo numa cena de  cinema

parecia o nome da rosa, de uma cor tão púrpura.

Voce era meu porto, meu Cairo, meu Egito

Um Amor sem escalas

Senti tua língua na pele que habito

Um replicante em 9 semanas e meia de amor

corpos Ardentes num copo de cólera, um inferno na torre

Fizemos a viagem ao centro da terra, com conexão em Chinatown

fui tua dama em Xangai, perdemos o trem na central do Brasil

Nos despedimos em Casablanca, peguei a estrada para a perdição.

Viramos irmão sol e irmã lua,uma mudança de hábito no cinema paradiso

a velha história de nunca te vi, sempre te amei.

Ficamos perdidos no espaço, tomamos café em Bagdá

Tomamos um whisky depois da meia noite em Paris

Cantamos na chuva ao som de New York, New York

Voce tão Brando, eu Frank Sinatra

Quando se foi, fiquei a espera de um milagre nas pontes de Madison

Minha vida virou um cabaret, quebrei bares como um vândalo em Chicago

Nosso amor de ontem vive um dia depois de amanhã.

Sou bela da tarde , um cinema em Lotação.


Moisés Chaves

02 de abril, 2024 Teresina.